Uma substância chamada polilaminina tem ganhado destaque após relatos de recuperação de movimentos em pessoas com lesão na medula espinhal. Apesar da repercussão, o tratamento ainda é considerado experimental e não está disponível para uso amplo no Brasil.

A polilaminina é uma forma modificada da laminina, proteína presente naturalmente no organismo e fundamental para a estrutura dos tecidos e o funcionamento dos neurônios. Pesquisas conduzidas por cientistas brasileiros e divulgadas por instituições como a Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro indicam que a substância pode estimular o crescimento de fibras nervosas e ajudar na reconexão de circuitos interrompidos após lesões.
Na prática, a lesão medular impede que os sinais elétricos enviados pelo cérebro cheguem aos músculos, o que leva à perda de movimentos. A proposta da polilaminina é criar condições para que essas conexões sejam parcialmente restabelecidas, permitindo a retomada de funções motoras.

Os primeiros resultados vieram de estudos em laboratório e testes com animais, que mostraram melhora na movimentação após a aplicação da substância. Com base nesses dados, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária autorizou estudos clínicos iniciais em humanos, etapa voltada principalmente para avaliar a segurança do uso.
Mesmo assim, especialistas alertam que ainda não há comprovação científica suficiente de eficácia em larga escala. A própria comunidade médica tem defendido cautela na interpretação dos casos divulgados, destacando que os resultados ainda são preliminares e precisam ser confirmados por pesquisas mais robustas.
Entidades médicas e especialistas em neurologia e reabilitação apontam que lesões na medula espinhal são complexas e exigem acompanhamento prolongado, com múltiplas abordagens terapêuticas. A possibilidade de recuperação funcional depende de fatores como o tipo de lesão, o tempo decorrido desde o trauma e a resposta individual de cada paciente.
No Brasil, a polilaminina não é oferecida pelo Sistema Único de Saúde nem coberta por planos de saúde. O acesso ocorre apenas dentro de protocolos de pesquisa autorizados ou, em alguns casos, por decisões judiciais que permitem o uso compassivo da substância em pacientes específicos.
Os estudos em andamento, registrados em plataformas oficiais de ensaios clínicos e acompanhados por órgãos reguladores, buscam entender melhor os efeitos da polilaminina, seus riscos e os grupos de pacientes que podem se beneficiar.
A expectativa em torno da substância está ligada ao fato de que, historicamente, lesões medulares têm poucas opções de tratamento com recuperação significativa de movimentos. Ainda assim, pesquisadores reforçam que qualquer avanço precisa ser validado com rigor científico antes de chegar à prática clínica.
Enquanto os testes continuam, a orientação de especialistas é que pacientes e familiares busquem informações em centros médicos de referência e evitem tratamentos fora de protocolos autorizados, já que a segurança e a eficácia da polilaminina ainda estão em avaliação.
Paciente voltou até a treinar
Entre os casos que mais chamaram atenção está o do brasileiro Bruno Drummond de Freitas, que recebeu a aplicação experimental da polilaminina após sofrer um acidente de carro em 2018. Com lesão medular considerada completa na região cervical, ele chegou a ser diagnosticado com tetraplegia, mas apresentou evolução progressiva ao longo dos anos.
Segundo relatos divulgados, o primeiro movimento voluntário ocorreu cerca de três semanas após o procedimento, e atualmente ele realiza treinos de reabilitação e é descrito como funcionalmente independente, apesar de ainda ter sequelas. Bruno também se encontrou com a ex-ginasta Lais Souza, que ficou tetraplégica após um acidente durante um treino de esqui para os Jogos Olímpicos de Inverno de 2014, nos Estados Unidos, e se emocionou com a possibilidade de avanço no tratamento de lesões medulares.
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